De grandes conspirações a pequenos abismos: os 50 melhores thrillers do século
- Thiago de Andrade

- 10 de ago.
- 6 min de leitura
Atualizado: 20 de ago.
O século onde espionagens e intrigas externas deram lugar ao ambiente doméstico e foco psicológico individual

Embora já existissem elementos desde A Odisséia de Homero, o thriller como pensamos hoje (bem como sua fama enquanto gênero e elementos reconhecíveis) se consolidou a partir do século XIX. Entre as principais influências: os relatos de crimes nos jornais, os medos e mistérios retratados nos romances góticos e a criação do gênero policial, através do detetive C. Auguste Dupin, personagem criado por Edgar Allan Poe no conto Os Assassinatos da Rua Morgue.
Sabendo da popularidade do gênero e visando ampliar sua polêmica lista de cânone literário, o The New York Times Book Review divulgou Os 50 melhores thrillers do século XXI. O jornal contou com colaboração de autores de diferentes subgêneros de suspense, críticos, bibliotecários e influencers, que votaram em seus dez thrillers preferidos publicados a partir do ano 2000.
Confira a análise com alguns destaques e a lista completa dos livros no final da matéria.
Debates e controversas são inerentes a qualquer lista que busque classificar os melhores de seu seguimento, principalmente quando a pesquisa não estabelece critérios objetivos rigorosos e contempla um grupo diverso de votantes em temas que a subjetividade faça parte da experiência individual. O primeiro ponto necessário para evitar decepções é entender que, se tratando de um veículo norte americano, é natural que a lista seja dominada por livros de língua inglesa. Mas, apesar de esnobarem um ou outro autor esperado e apontarem que algumas obras, por mais que tenham suspense, pertencem a outro gênero (como Matéria Escura de Blake Crounch, que combinaria mais com ficção científica), As escolhas refletem muito do que era esperado e ajuda a entender a mudança de perspectiva sobre o gênero nos dias atuais.
os autores mais citados
A escolha de Garota Exemplar para o primeiro lugar em nada surpreende. O romance de Gillian Flynn se tornou uma espécie de marco do thriller psicológico contemporâneo ao transformar o casamento, a mídia e a própria ideia de narrador confiável em campos de batalha. O romance teve uma adaptação de sucesso dirigida por David Fincher e protagonizado por Ben Afflick e Rosamund Pike. Seu outro romance mais famoso, Objetos Cortantes, aparece em 19º lugar e também rendeu uma adaptação como minissérie de oito episódios para a HBO, estrelada por Amy Adams. A autora não apenas está entre as primeiras posições: suas obras ajudam a representar uma das principais tendências do thriller do século XXI — o deslocamento do perigo externo para dentro da intimidade.
Quem também se destacou foi Tana French. Ainda pouco falada no Brasil, a autora foi a única com 4 menções na lista, sendo três livros da série Dublin Murder Squad: o primeiro volume da série, No Bosque da Memória (#03), o segundo, Dentro do Espelho (#34) e o quarto, Porto Inseguro (#20), além do romance individual Árvore de Ossos (#33).
Os outros dois autores que se repetem na lista são casos opostos. Experiente e velho conhecido do público americano
S.A. Cosby é um novato, seu romance de estreia foi lançado em 2018. Dos cinco livros publicados, emplacou três na lista: Todos os Pecadores Sangram (#28), Asfalto maldito (#11), Lágrimas de Aço (#08), todos premiados e escritos entre 2022 e 2024, o que o levou a uma aclamação crítica meteórica. Explorando o subgênero do noir rural, suas histórias se passam no sul dos Estados Unidos e exploram temas como racismo, dinâmica de pequenas cidades, culpa e laços familiares.
Já Dennis Lehane já é experiente e velho conhecido do público americano, tendo diversos livros bestsellers e uma carreira de roteirista e consultor criativo em diversas séries de TV. As duas obras lembradas já eram esperadas, visto que geraram algumas das melhores adaptações cinematográficas nas mãos de diretores icônicos e elencos estrelados: Ilha do Medo (#17) - Dirigido por Scorsese, com Leonardo DiCaprio, Mark Rufallo e Ben Kingsley no elenco (em um dos finais mais lembrados dos últimos tempos. E Sobre Meninos e Lobos (#02) - filme indicado em 7 categorias (incluindo roteiro adaptado), dirigido por Clint Eastwood e estrelado por Sean Penn e Tin Robbins que venceram o oscar naquele ano.
O mutualismo entre literatura e cinema
Uma parcela expressiva dos livros que aparecem nas posições mais altas não existe apenas como experiência literária. Eles também existem como imagens, atores, cenas, trilhas sonoras e personagens que passaram a fazer parte da memória coletiva e cultural
A expansão dos streamings e das novas mídias aumentou a demanda por conteúdo justamente quando a indústria cinematográfica enfrentava uma crise no modelo tradicional das salas e uma transformação na maneira como o público consome filmes e séries. Nesse cenário, adaptar uma história que já chega acompanhada de leitores, reconhecimento e comunidades engajadas tornou-se uma aposta particularmente atraente. Continuações, franquias e best-sellers contemporâneos que já mobilizavam públicos no Bookstagram e no BookTok ofereciam às produtoras uma audiência potencial já formada e não dependiam exclusivamente da capacidade de uma obra inédita conquistar um espectador com dificuldades de se conectar com uma história que ainda não possui uma relação afetiva.Pelo outro lado, existem muitos livros publicados e uma guerra de atenções. Uma adaptação bem sucedida amplia o alcance da obra e desperta curiosidade mesmo entre outros autores e pessoas do mundo literário que inicialmente não colocariam a obra no radar. Com isso, uma obra pode ganhar uma segunda vida anos depois de sua publicação, alcançar leitores de outras gerações e permanecer no imaginário coletivo por muito mais tempo. A adaptação, nesse sentido, não apenas transporta uma história de uma mídia para outra: pode contribuir para sua longevidade, sua memória cultural e para a consolidação de personagens e narrativas que, sem esse novo alcance, talvez permanecessem restritos ao público literário.
O crime também muda de território
Ainda há espaço para enredos focados em espionagem, como Slow Horses e Eu sou o Peregrino, o thriller jurídico de O Poder e a Lei, para o policial de Bluebird, Bluebird e Os Homens que não Amavam as Mulheres. Porém, a lista demonstra que o thriller do século XXI é menos dependente de detetives tradicionais e tramas de quebra-cabeça e mais interessado em personagens falhos e suas consequências.
O sucesso desse tipo de narrativa focada no individuo também coincide com uma cultura cada vez mais diversa, onde mulheres conseguem expor seus medos, traumas e serem ouvidas. Com isso, o suspense se desloca do ambiente macro e anônimo, dependente de uma figura heróica (característico de autores masculinos), para o ambiente íntimo onde boa parte do abuso acontece em ambiente doméstico e o vilão é conhecido. Personagens não confiáveis, exposição midiática, perigos digitais e fragmentação psicológica impactam pelo retrato cotidiano.
Afinal, escolher os melhores thrillers é também identificar quais medos definem a época que se vive.
os 50 melhores thrillers do século XXI
50 - Nada Disso é Verdade - Lisa Jewell (2023)
49 - As Páginas em Sangue - Anthony Horowitz (2017)
48 - Todas as Cores da Escuridão - Chris Whitaker (2024)
47 - O Impulso - Ashley Audrain (2021)
46 - Antes de Dormir - S.J. Watson (2011)
45 - Gótico Mexicano - Silvia Moreno-Garcia (2020)
44 - Jar of Hearts - Jennifer Hillier (2018) (sem tradução para o português brasileiro)
43 - Vida Vadia - Richard Price (2008)
42 - Você - Caroline Kepnes (2014)
41 - Não Conte a Ninguém - Harlan Coben (2001)
40 - Matéria Escura - Blake Crouch (2016)
39 - Na Ponta dos Dedos - Sarah Waters (2002)
38 - Eu Sou o Peregrino - Terry Hayes (2014)
37 - Your House Will Pay - Steph Cha (2019) (sem tradução para o português brasileiro)
36 - A Paciente Silenciosa - Alex Michaelides (2019)
35 - Todos os Pecadores Sangram - S.A. Cosby (2023)
34 - Dentro do Espelho - Tana French (2008)
33 - Árvore de Ossos - Tana French (2018)
32 - Anatomia de Uma Execução - Danya Kukafka (2022)
31 - Em Defesa de Jacob - William Landay (2012)
30 - O Simpatizante - Viet Thanh Nguyen (2015)
29 - A Trama - Jean Hanff Korelitz (2021)
28 - Canção de Ninar - Leila Slimani (2018)
27 - Pequenas Grandes Mentiras - Liane Moriarty (2014)
26 - O Código Da Vinci - Dan Brown (2003)
25 - Ossos do Inverno - Daniel Woodrell (2006)
24 - A Seca - Jane Harper (2017)
23 - O Pintassilgo - Donna Tartt (2013)
22 - O Jardineiro Fiel - John Le Carré (2001)
21 - Quarto - Emma Donoghue (2010)
20 - Porto Inseguro - Tana French (2012)
19 - Objetos Cortantes - Gillian Flynn (2006)
18 - Novembro de 63 - Stephen King (2011)
17 - Ilha do Medo - Dennis Lehane (2003)
16 - O Poder e a Lei - Michael Connelly (2005)
15 - Dare Me - Megan Abbott (2012) (sem tradução para o português brasileiro)
14 - Precisamos Falar Sobre Kevin - Lionel Shriver (2003)
13 - Case Histories - Kate Atkinson (2004) (sem tradução para o português brasileiro)
12 - A Garota no Trem - Paula Hawkins (2015)
11 - Asfalto maldito - S.A. Cosby (2020)
10 - Bluebird, Bluebird - Attica Locke (2017)
9 - Slow Horses - Mick Herron (2010)
8 - Lágrimas de aço - S.A. Cosby (2021)
7 - Ecos da Floresta - Liz Moore (2024)
6 - Minha Irmã, a Serial Killer - Oyinkan Braithwaite (2018)
5 - Onde os Velhos Não Têm Vez - Cormac McCarthy (2005)
4 - Os Homens Que Não Amavam as Mulheres - Stieg Larsson (2008)
3 - No Bosque da Memória - Tana French (2007)
2 - Sobre Meninos e Lobos - Dennis Lehane (2001)
1 - Garota Exemplar - Gillian Flynn (2012)




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